Na edição de janeiro e fevereiro de 2020 do Clube de Pedais Velouria, mergulhamos em um tipo de circuito que ocupa uma posição curiosa na história dos pedais. O Wizard of Ohm nasceu a partir do Ibanez OD-850, um efeito lançado em meados dos anos 70 que carregava no nome a palavra overdrive, mas cuja personalidade sempre esteve muito mais próxima de um grande fuzz.

Esse contraste já diz bastante sobre o pedal original.

Em uma época em que as categorias ainda não estavam tão claramente definidas como hoje, o OD-850 apareceu como um circuito de ganho intenso, sustain abundante e uma resposta mais espessa e agressiva do que aquilo que normalmente associamos a um overdrive.

Na prática, ele se comporta como um fuzz encorpado, cheio de textura e com aquela capacidade de transformar notas simples em blocos densos de saturação.

Sua arquitetura costuma ser associada à linhagem dos grandes fuzzes setentistas, especialmente pela maneira como trabalha compressão, sustain e conteúdo harmônico.

Existe bastante massa sonora, mas sem perder completamente o contorno das notas. Em regulagens mais moderadas, o circuito já apresenta um drive espesso e sujo. Conforme o ganho aumenta, o som ganha corpo, sustain e uma textura cada vez mais pronunciada.

Outro ponto importante é a forma como esse tipo de circuito lida com a equalização.

O timbre pode ir de uma resposta mais fechada e aveludada até algo mais cortante e agressivo, dependendo da regulagem. Isso faz com que o pedal não se limite a apenas um único tipo de fuzz.

Ele pode ocupar desde um território mais pesado e encorpado até regiões mais ásperas e cortantes, sempre mantendo aquele caráter amplo e comprimido que é uma das marcas desse tipo de circuito.

Foi justamente essa personalidade que nos levou ao Wizard of Ohm.

A proposta era revisitar um pedal que talvez não tenha a mesma fama de outros grandes nomes da história do fuzz, mas que guarda uma identidade muito particular. O OD-850 é um daqueles circuitos que parecem existir entre categorias. Ele não tem a transparência de um overdrive clássico, nem a dinâmica mais aberta de certos fuzzes de dois transistores.

Em vez disso, entrega um som cheio, espesso e sustentado, com uma assinatura muito própria.

No contexto do Clube, isso fez do Wizard of Ohm uma escolha especialmente interessante. Ele representa bem aquela ideia de recuperar circuitos históricos que nem sempre ocupam o centro das conversas, mas que carregam uma sonoridade forte o bastante para justificar uma nova leitura.

Com o Wizard of Ohm, o Clube seguiu ampliando seu mapa de referências. Depois de passar por fuzzes, boosters, filtros, overdrives e pré amplificadores de alto ganho, chegava a vez de explorar mais um capítulo do universo das saturações vintage.

Um capítulo em que o nome diz uma coisa, mas o som entrega outra bem mais selvagem.