Na edição de janeiro e fevereiro de 2022 do Clube de Pedais Velouria, fizemos algo diferente. Em vez de escolher um único circuito, voltamos às origens do fuzz britânico e resgatamos quatro versões da família Tone Bender.
Cada participante podia escolher qual modelo receberia entre MK1, MK1.5, MK2 e Jumbo Tone Bender.
Apesar de compartilharem o mesmo nome, essas quatro versões estão longe de representar apenas pequenas revisões de um único projeto. A história do Tone Bender é marcada por mudanças profundas de arquitetura, quantidade de transistores e comportamento, fazendo com que cada geração possua uma personalidade bastante própria.
O Tone Bender MK1 surgiu em 1965 e está diretamente ligado aos primeiros passos do fuzz britânico. Desenvolvido por Gary Hurst a partir da ideia do Maestro Fuzz Tone, utilizava três transistores e buscava justamente uma resposta mais agressiva e com maior sustain.
Seu comportamento é bastante particular.
O MK1 possui ataque forte, textura áspera e uma saturação que pode assumir um caráter quase quebradiço. Existe uma certa instabilidade que faz parte de sua personalidade, especialmente quando comparado aos fuzzes mais suaves e arredondados que apareceriam pouco depois.
O MK1.5 seguiu um caminho completamente diferente.
O circuito foi reduzido para dois transistores e passou a apresentar uma resposta mais aberta, dinâmica e diretamente relacionada à interação com a guitarra. Essa arquitetura também possui uma ligação histórica muito próxima com aquilo que posteriormente se tornaria o Fuzz Face.
Com o volume da guitarra totalmente aberto, o MK1.5 pode produzir um fuzz cheio e encorpado. Conforme o volume do instrumento é reduzido, a saturação recua progressivamente e revela timbres mais limpos e articulados.
É um circuito em que o músico participa diretamente da construção do ganho.
O Tone Bender MK2 retomou a arquitetura de três transistores, mas partindo do princípio do MK1.5 e acrescentando um estágio adicional de ganho.
O resultado é um fuzz maior, mais comprimido e com muito sustain. O ataque continua bastante presente, mas existe mais densidade e uma sensação de saturação contínua que ajudou a transformar o MK2 em uma das versões mais reconhecidas da família.
Apesar da proximidade histórica entre MK1, MK1.5 e MK2, o Jumbo Tone Bender leva o nome para um território completamente diferente.
Sua arquitetura possui relação muito mais próxima com o Big Muff do que com os primeiros Tone Benders. É um circuito de três transistores, com uma saturação mais densa e uma resposta que se aproxima das grandes paredes de fuzz dos anos 70.
Isso tornou a edição especialmente interessante.
Escolher entre os quatro modelos não significava simplesmente decidir entre mais ou menos ganho.
O MK1 oferecia uma resposta agressiva, primitiva e cheia de textura.
O MK1.5 caminhava para um fuzz mais aberto, dinâmico e sensível ao instrumento.
O MK2 entregava mais ganho, compressão e sustain.
O Jumbo levava o conceito para uma saturação mais pesada e encorpada, já pertencente a outra escola de fuzz.
Reunir os quatro em uma mesma edição permitiu mostrar como um único nome pode esconder circuitos completamente diferentes.
Mais do que homenagear um pedal específico, o bimestre de janeiro e fevereiro de 2022 foi uma pequena viagem pela própria evolução do fuzz.
Quatro circuitos, quatro personalidades e quatro maneiras diferentes de contar a história do Tone Bender.
