Na edição de janeiro e fevereiro de 2025 do Clube de Pedais Velouria, voltamos a uma das famílias mais importantes da história dos envelope filters.
O Microtron nasceu a partir do Mu-Tron Micro V, uma versão compacta e simplificada da ideia apresentada originalmente pelo lendário Mu-Tron III.
O Mu-Tron III apareceu no início dos anos 70 e ajudou a estabelecer o envelope filter como uma categoria própria de efeito.
A grande diferença para um wah convencional está na maneira como o filtro é controlado.
Em vez de movimentar um pedal com o pé, é o próprio sinal do instrumento que determina como o filtro se comporta.
Quanto maior o ataque e a intensidade da nota, maior pode ser o movimento do filtro.
Isso cria uma relação extremamente direta entre músico e circuito.
A palhetada passa a funcionar praticamente como mais um controle do pedal.
Tocar suavemente produz uma resposta.
Aumentar a intensidade produz outra.
O resultado pode ir daquele movimento arredondado e vocal típico do funk até ataques muito mais pronunciados, quase sintetizados.
Depois do sucesso do Mu-Tron III, a Musitronics desenvolveu o Micro V como uma alternativa mais simples, compacta e acessível.
O projeto original reduziu bastante a quantidade de controles. Em vez das várias opções oferecidas pelo Mu-Tron III, o Micro V utilizava apenas uma chave Hi/Lo para definir a região de frequências e um controle Range, que determinava quanto o filtro se movimentava em resposta ao sinal de entrada.
Essa simplicidade não eliminava aquilo que realmente importava.
O Micro V continuava oferecendo aquele comportamento de wah controlado pelo toque, capaz de responder de maneira completamente diferente dependendo do instrumento e da execução.
A própria Musitronics apresentava o pedal como adequado para guitarra, baixo, teclados e até instrumentos de sopro eletrificados.
No Microtron, partimos dessa ideia, mas ampliamos bastante o controle sobre a resposta do envelope.
O pedal conta com Range, Attack e Decay, além da seleção de Freq.
Range determina a amplitude do movimento do filtro e sua sensibilidade ao sinal que entra no circuito.
Attack permite trabalhar a velocidade com que o filtro reage ao início da nota.
Com uma resposta rápida, cada ataque produz um movimento imediato e pronunciado, perfeito para linhas rítmicas e sons mais percussivos.
Alterando esse comportamento, o filtro pode responder de maneira mais progressiva e suave.
O Decay trabalha o outro lado do movimento.
Ele determina como o filtro retorna depois de ser acionado.
Com tempos menores, o efeito acompanha rapidamente cada nota, criando aquele quack curto e articulado associado aos envelope filters clássicos.
Com um decay maior, o movimento se estende e ganha uma sensação mais fluida e expressiva.
Já a seleção de Freq permite escolher a região em que o filtro trabalha, tornando mais fácil adaptar o Microtron a diferentes instrumentos e registros.
No baixo, por exemplo, uma região mais grave pode preservar o peso do instrumento enquanto acrescenta movimento.
Na guitarra, frequências mais altas podem produzir ataques muito mais pronunciados e vocais.
É justamente essa interação que faz o envelope filter ser um efeito tão diferente de uma modulação convencional.
Não existe um oscilador simplesmente repetindo o mesmo movimento em uma velocidade fixa.
A música controla o efeito.
Duas pessoas usando exatamente a mesma regulagem podem produzir resultados completamente diferentes dependendo da força da mão, do instrumento e até da forma como cada frase é articulada.
O circuito original do Micro V também possui uma história interessante porque não era simplesmente uma miniaturização do Mu-Tron III.
Mike Beigel explica que o projeto utilizava uma arquitetura diferente, com amplificadores de transcondutância no controle de frequência em vez do sistema óptico empregado no III. O objetivo era criar uma versão mais acessível sem abandonar a essência musical do envelope filter.
No Microtron, nossa proposta foi trazer essa ideia para um formato moderno e dar ao músico mais controle justamente sobre aquilo que torna um envelope filter especial: a maneira como ele reage.
Pode ser funk.
Pode ser psicodélico.
Pode soar quase como um sintetizador.
Pode produzir movimentos discretos ou transformar completamente cada nota.
Na edição de janeiro e fevereiro de 2025, o Microtron trouxe de volta ao Clube aquela ideia que já havia aparecido anos antes com o Orbitron, mas através de outra arquitetura e de uma proposta muito mais compacta.
Um filtro que não apenas acompanha aquilo que você toca.
Ele responde à maneira como você toca.
