Na edição de janeiro e fevereiro de 2026 do Clube de Pedais Velouria, encerramos mais um capítulo da nossa pesquisa por circuitos raros com um projeto que passou quase cinquenta anos existindo apenas em uma folha de papel.

O The Lost Circuit nasceu a partir do Electro Harmonix Big Muff Pi 2, um pedal lançado somente em 2025, mas cuja história começa ainda no final dos anos 70.

E aqui existe uma diferença importante.

Não estamos falando simplesmente de outra versão do conhecido Op Amp Big Muff produzido pela Electro Harmonix naquele período.

O Big Muff Pi 2 parte de outro circuito, projetado por Bob Myer, um dos criadores do Big Muff original, como uma tentativa de reinterpretar a arquitetura clássica do pedal utilizando a então moderna tecnologia de amplificadores operacionais.

O projeto nunca entrou em produção.

O esquema permaneceu guardado entre os arquivos de Bob Myer por décadas, praticamente esquecido, até ser encontrado em 2021 durante uma pesquisa para o livro Made On Earth For Rising Stars: The Electro Harmonix Story.

Josh Scott, da JHS Pedals, e o artista e arquivista Daniel Danger estavam pesquisando o acervo de Myer quando encontraram uma folha desenhada à mão identificada como Big Muff Using 2 Dual Op Amps.

Era, essencialmente, um Big Muff que poderia ter existido nos anos 70, mas nunca existiu.

O circuito foi então reconstruído exatamente a partir daquele esquema.

E o resultado mostrou que aquela ideia esquecida tinha personalidade suficiente para finalmente se transformar em um produto.

O Big Muff Pi 2 utiliza dois amplificadores operacionais duplos, mas sua arquitetura é diferente daquela encontrada no famoso Op Amp Big Muff do final dos anos 70.

O sistema de clipping é diferente.

Existe um estágio adicional de ganho.

E a distribuição de ganho ao longo do circuito produz uma resposta própria dentro da enorme família Big Muff.

Ainda existe muito daquilo que esperamos de um Muff.

Sustain longo.

Grandes quantidades de saturação.

Graves enormes.

E aquela sensação de uma nota entrando em uma parede contínua de fuzz.

Mas o comportamento muda bastante.

O Big Muff Pi 2 apresenta uma região média mais evidente, graves particularmente pronunciados e uma resposta aguda mais áspera e cortante.

A própria saturação parece um pouco menos polida.

Existe mais textura nas bordas das notas e uma sensação ligeiramente mais agressiva do que em muitas das versões tradicionais do circuito.

Isso também faz com que ele seja um pouco mais dinâmico.

Em vez de comprimir tudo imediatamente em uma grande massa de sustain, diferentes intensidades de ataque conseguem alterar melhor a forma como o fuzz responde.

Foi justamente essa combinação que nos interessou no desenvolvimento do The Lost Circuit.

O pedal mantém a estrutura clássica de controles da família Big Muff, com Volume, Tone e Sustain.

Sustain determina a quantidade de fuzz e o quanto as notas são comprimidas e prolongadas pelo circuito.

Em regulagens menores, é possível encontrar uma textura mais aberta e granulada.

Conforme o controle aumenta, o pedal entra naquela região de sustain praticamente contínuo que tornou o Big Muff uma referência absoluta entre os fuzzes.

O Tone trabalha o equilíbrio entre graves e agudos.

Girando para um lado, o som fica maior, mais escuro e carregado de graves.

Na direção oposta, aparecem mais ataque, aspereza e conteúdo harmônico superior.

No The Lost Circuit, esse controle se torna especialmente interessante porque o próprio circuito possui uma região média mais presente do que várias receitas clássicas de Muff.

Isso permite chegar a timbres grandes e pesados sem necessariamente criar aquela sensação extremamente cavada normalmente associada à família.

O Volume controla o nível final e oferece bastante espaço para empurrar o amplificador ou qualquer outro estágio colocado depois do pedal.

Essa combinação produz um fuzz que continua imediatamente reconhecível como parte da linhagem Big Muff, mas que não soa simplesmente como mais uma pequena variação de uma receita conhecida.

Existe mais agressividade.

Mais médios.

Uma textura um pouco mais crua.

E uma resposta que parece ocupar uma região intermediária entre o sustain enorme dos Muffs clássicos e um fuzz mais direto e rasgado.

Mas talvez o aspecto mais interessante dessa edição esteja na própria história do circuito.

Normalmente, quando revisitamos um pedal antigo no Clube, estamos trabalhando com algo que existiu fisicamente em determinada época.

Um circuito foi produzido, usado por músicos, desapareceu do mercado e décadas depois passou a ser redescoberto.

Aqui aconteceu algo diferente.

O Big Muff Pi 2 é praticamente uma linha do tempo alternativa.

É a resposta para uma pergunta que ficou aberta durante quase cinquenta anos.

Como teria sido a história do Big Muff se Bob Myer tivesse levado esse projeto adiante no final dos anos 70?

Talvez tivesse se tornado apenas mais uma versão.

Talvez tivesse mudado o caminho das gerações seguintes.

Talvez tivesse desaparecido rapidamente.

Nunca saberemos.

O que sabemos é que o circuito sobreviveu.

Primeiro como um desenho guardado entre papéis antigos.

Depois como uma descoberta inesperada.

E finalmente como um pedal real.

Na edição de janeiro e fevereiro de 2026, o The Lost Circuit trouxe essa história para o Clube de Pedais Velouria.

Nossa interpretação de um Big Muff que ficou perdido durante décadas e que, por acaso, recebeu uma segunda chance de existir.