A história do fuzz não foi construída apenas pelos grandes modelos americanos e ingleses que acabaram se tornando referência. No final dos anos 60, o Japão também desenvolvia sua própria escola de efeitos, frequentemente mais agressiva, estranha e experimental.

Foi nesse universo que buscamos a inspiração para a edição de julho e agosto de 2024 do Clube de Pedais Velouria.

O Asteroid nasceu a partir do Ace Tone FM-2 Fuzz Master, um raro fuzz japonês produzido no final da década de 60 e pertencente à mesma família de circuitos que deu origem a algumas das sonoridades mais extremas daquele período.

O FM-2 possui uma relação próxima com a arquitetura do lendário Super Fuzz. Isso significa que estamos bastante distantes da resposta arredondada e dinâmica de um Fuzz Face ou da parede de ganho homogênea de um Big Muff.

Aqui o fuzz é agressivo, comprimido e carregado de harmônicos.

Uma das características mais interessantes desse tipo de circuito é a presença daquela textura que lembra uma oitava superior surgindo no meio da distorção. Ela não se comporta como um oitavador convencional e também não aparece da mesma maneira em todas as regiões do instrumento.

Dependendo da nota, da posição tocada, do captador utilizado e até da maneira como duas notas interagem, novos harmônicos aparecem dentro do fuzz.

Isso faz com que o circuito tenha uma resposta quase imprevisível.

Acordes podem se transformar em grandes blocos de saturação. Notas isoladas revelam harmônicos metálicos e cortantes. Alguns intervalos fazem o circuito produzir frequências adicionais que parecem surgir de dentro da própria distorção.

Também existe uma mudança bastante radical de personalidade através da seleção de tonalidade típica dessa família de fuzzes. De um lado aparece um som mais cheio, pesado e carregado de graves. Do outro, uma resposta mais cavada, estridente e agressiva, com aquela sensação de fuzz serrado que atravessa facilmente uma mix.

O Asteroid levou essa personalidade para o Clube justamente por representar um lado particularmente interessante da história dos pedais.

Não é um fuzz criado para ser educado ou transparente. Também não é um circuito que tenta preservar perfeitamente o som original da guitarra.

Ele existe para transformar.

É um efeito que comprime, distorce, cria novos harmônicos e reage de maneira diferente conforme aquilo que recebe. Quanto mais simples o riff, muitas vezes mais evidente se torna a complexidade gerada pelo próprio circuito.

O Asteroid representa muito bem uma das ideias que sempre estiveram por trás do Clube de Pedais Velouria: procurar além dos clássicos mais óbvios e recuperar projetos que ajudaram a construir a história dos efeitos mesmo sem terem alcançado a mesma fama.

Um pequeno pedaço da explosiva escola japonesa de fuzz do final dos anos 60, reconstruído várias décadas depois em forma de Asteroid.