Na edição de julho e agosto de 2024 do Clube de Pedais Velouria, voltamos nossa atenção para um capítulo muito especial da história dos efeitos no Brasil.

O Distorcedor nasceu a partir do lendário fuzz desenvolvido por Cláudio César Dias Baptista para os Mutantes.

Mais do que simplesmente uma banda com uma identidade musical única, os Mutantes construíram grande parte dessa identidade através da experimentação.

Instrumentos modificados, equipamentos artesanais, circuitos criados especialmente para determinadas músicas e soluções técnicas completamente fora dos padrões comerciais faziam parte daquele universo.

Cláudio César teve um papel fundamental nisso.

Foi responsável por construir e desenvolver diversos equipamentos utilizados por Sérgio Dias e pelo restante do grupo, criando soluções específicas para alcançar sons que simplesmente não estavam disponíveis nas lojas brasileiras daquele período.

Entre essas experiências estava o fuzz que se tornaria uma das assinaturas da guitarra dos Mutantes.

Sua sonoridade é imediatamente reconhecível.

Existe um rasgado muito particular na saturação, com bastante conteúdo harmônico e uma textura que não se comporta exatamente como os fuzzes americanos ou ingleses mais conhecidos daquela época.

O sinal parece ao mesmo tempo comprimido, agressivo e cheio de pequenas irregularidades.

É justamente esse comportamento que aparece de maneira tão marcante em várias gravações da banda.

No Distorcedor, partimos desse circuito e trabalhamos sobre alguns pontos para torná lo mais funcional dentro de um setup moderno.

Uma das alterações foi a correção de impedância.

Circuitos antigos muitas vezes foram desenvolvidos pensando em uma situação de uso muito específica, e isso pode fazer com que a interação com outros pedais ou equipamentos modernos nem sempre seja ideal.

Também trabalhamos sobre a perda de volume presente no projeto original.

A ideia era preservar a textura do fuzz sem obrigar o músico a aceitar uma queda significativa de nível quando o pedal fosse acionado.

Além disso, ampliamos os controles disponíveis.

O Distorcedor conta com Volume, Gain, Timbre e Attack.

O Gain permite controlar a quantidade de saturação e explorar diferentes intensidades daquela textura característica.

O Timbre atua sobre a resposta tonal e ajuda a adaptar o fuzz ao instrumento e ao amplificador utilizado.

O Attack modifica a maneira como o circuito reage ao início das notas, permitindo trabalhar desde respostas mais cheias até texturas mais secas e recortadas.

Essa combinação transforma nossa versão em algo mais ajustável sem perder a essência do circuito original.

O resultado continua tendo aquela personalidade estranha e rasgada que imediatamente remete ao universo dos Mutantes, mas com uma faixa de uso muito mais ampla.

Em regulagens mais tradicionais, o Distorcedor entrega aquele fuzz psicodélico e cheio de caráter associado às gravações clássicas da banda.

Em ajustes mais extremos, a textura pode ficar muito mais áspera, comprimida e imprevisível.

Existe também uma característica interessante nesse tipo de circuito quando utilizado fora da maneira convencional.

Ligado diretamente a uma interface ou mesa, por exemplo, o resultado pode ficar ainda mais seco, agressivo e peculiar.

Ao entrar em um amplificador, a própria resposta do amp passa a fazer parte da saturação e o fuzz ganha outra dimensão.

Essa edição teve um significado especial dentro do Clube.

Desde o começo, uma das propostas do projeto sempre foi revisitar circuitos raros, esquecidos ou difíceis de encontrar.

Dessa vez, porém, a referência estava muito mais próxima.

O Distorcedor trouxe para o Clube uma peça da história da música brasileira e uma lembrança de uma época em que criar um som novo muitas vezes significava construir o próprio equipamento para que ele pudesse existir.