Na edição de maio e junho de 2022 do Clube de Pedais Velouria, fizemos novamente uma edição diferente.

Dessa vez, não existia apenas um pedal do bimestre.

Resgatamos dois circuitos clássicos de fuzz, e os participantes podiam escolher entre o Dot.Fuzz, nossa interpretação do Shin Ei Companion Fuzz FY2, e o La Brea, baseado no Ampeg Scrambler.

São dois pedais originados praticamente no mesmo período, mas que representam maneiras completamente diferentes de destruir o sinal de uma guitarra.

O Shin Ei Companion Fuzz FY2 surgiu no Japão entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 e se tornou conhecido por uma sonoridade particularmente crua.

O circuito produz um fuzz comprimido, áspero e com uma resposta de médios bastante característica. Nas versões mais conhecidas do FY2, a própria rede de tonalidade contribui para um corte pronunciado nessa região, criando aquele som distante, nasal e quase lo-fi que se tornou parte fundamental de sua identidade.

Não é um fuzz preocupado em parecer grande ou refinado.

Sua graça está justamente na textura.

As notas parecem passar por um equipamento funcionando no limite. Ataques podem se tornar secos e agressivos, o sustain pode adquirir um comportamento mais quebradiço e acordes se transformam rapidamente em grandes blocos de ruído harmônico.

Foi essa personalidade que serviu como ponto de partida para o Dot.Fuzz.

Na nossa interpretação, os controles de Level, Fuzz, Tone e Voice ampliaram as possibilidades de regulagem do conceito, permitindo explorar diferentes respostas sem retirar do circuito aquele caráter estranho e agressivo que tornou o FY2 interessante em primeiro lugar.

Do outro lado da edição estava o La Brea.

Seu ponto de partida foi o Ampeg Scrambler, um dos efeitos mais incomuns surgidos no final dos anos 60. O Scrambler original foi apresentado em 1969 e combinava saturação com a geração de conteúdo harmônico de oitava superior.

Mas, assim como acontece com outros octave fuzzes analógicos, essa oitava não se comporta como um efeito digital perfeitamente definido.

Ela surge da interação entre os harmônicos criados pelo próprio circuito.

Dependendo da nota, do captador, da região do braço e da maneira de tocar, diferentes frequências aparecem e desaparecem dentro da saturação.

Em notas isoladas, o resultado pode adquirir um caráter metálico e quase sintetizado.

Em acordes e intervalos mais complexos, os harmônicos começam a competir entre si e o circuito entra em um território muito mais caótico.

O La Brea nasceu dessa ideia.

Enquanto o Dot.Fuzz trabalha principalmente com compressão, recorte de frequências e uma textura crua de fuzz japonês, o La Brea explora a distorção através da geração de novos harmônicos e da sensação de oitava que emerge de dentro do próprio sinal.

Colocar os dois na mesma edição fazia sentido justamente porque eles representam um período em que o fuzz ainda não possuía uma receita definida.

Fabricantes diferentes estavam encontrando maneiras completamente próprias de transformar o som da guitarra.

De um lado, o comportamento seco, nasal e agressivo do Shin Ei Companion Fuzz FY2.

Do outro, a saturação cheia de harmônicos e oitavas do Ampeg Scrambler.

Na edição de maio e junho de 2022, colocamos novamente a decisão nas mãos de quem fazia parte do Clube.

Dot.Fuzz ou La Brea. Dois circuitos raros, duas abordagens completamente diferentes e mais dois capítulos daquela época em que o fuzz ainda podia ser praticamente qualquer coisa.