Na edição de março e abril de 2025 do Clube de Pedais Velouria, fomos até a Nova Zelândia buscar a referência para um dos overdrives mais cultuados e particulares da história dos efeitos.
O Melt Drive nasceu a partir do Crowther Hot Cake, pedal criado por Paul Crowther em 1976.
Crowther era baterista do Split Enz e já possuía experiência com eletrônica quando começou a desenvolver suas próprias soluções para guitarra. A ideia que daria origem ao Hot Cake surgiu enquanto trabalhava em formas diferentes de produzir distorção sem descaracterizar completamente o sinal original.
O conceito é especialmente interessante.
Em vez de simplesmente filtrar toda a guitarra e depois distorcê la, Crowther desenvolveu uma arquitetura em que o sinal preserva grande parte de seu caráter enquanto a parcela saturada recebe sua própria modelagem.
Isso ajuda a explicar uma das características mais marcantes do Hot Cake.
Mesmo quando o drive começa a crescer, existe uma sensação de que o instrumento continua presente por baixo da saturação.
O ataque permanece claro.
A dinâmica continua respondendo à mão.
E acordes conseguem manter uma separação bastante interessante mesmo quando o pedal é levado para regiões mais carregadas.
Essa resposta faz com que o circuito tenha uma faixa de utilização enorme.
Com pouco Drive, ele pode trabalhar praticamente como um booster ou como uma extensão do próprio amplificador, acrescentando apenas uma pequena quantidade de calor e textura.
Conforme o ganho aumenta, o som começa a entrar em uma região de crunch mais evidente.
A saturação cresce, aparecem mais harmônicos e o timbre ganha corpo sem abandonar imediatamente a definição.
Levando o circuito ainda mais longe, o Hot Cake entra em uma região muito mais densa.
O drive começa a adquirir uma textura granulada e agressiva, quase chegando ao território dos fuzzes em regulagens extremas.
Foi justamente essa amplitude que nos interessou no desenvolvimento do Melt Drive.
O pedal conta com controles de Level, Drive e Presence.
O Level determina o nível geral de saída e permite tanto equilibrar o pedal com o sinal limpo quanto utilizar a reserva de volume para empurrar o amplificador ou outros efeitos.
O Drive controla a quantidade de saturação e permite percorrer toda essa região que vai de uma coloração discreta até um drive cheio, comprimido e bastante agressivo.
Já o Presence trabalha a região mais alta do espectro e ajuda a determinar quanto ataque, brilho e definição estarão presentes no resultado final.
Essa combinação torna o Melt Drive especialmente interessante para quem gosta de construir a saturação a partir do próprio amplificador.
Com pouco ganho e bastante nível, ele pode simplesmente empurrar os primeiros estágios do amp.
Com mais Drive, passa a produzir sua própria textura.
E entre esses dois extremos existe uma enorme região intermediária em que pedal e amplificador começam a trabalhar juntos.
O Hot Cake também conquistou uma reputação especial justamente por sua relação com amplificadores de resposta aberta e dinâmica.
Quando colocado diante de um amp valvulado trabalhando próximo da saturação, o circuito consegue aumentar ganho e densidade sem necessariamente eliminar aquilo que já torna aquele amplificador interessante.
No Melt Drive, buscamos preservar essa característica.
Não um overdrive criado para impor uma única assinatura sobre qualquer equipamento, mas um circuito que pode trabalhar junto com a guitarra e o amplificador para construir diferentes graus de saturação.
Na edição de março e abril de 2025, trouxemos para o Clube nossa interpretação de um dos grandes clássicos da escola neozelandesa de efeitos.
Um circuito aparentemente simples, criado nos anos 70, mas com uma abordagem tão particular que continua sendo referência quase cinquenta anos depois.
