Na edição de setembro e outubro de 2020 do Clube de Pedais Velouria, voltamos ao universo dos fuzzes, mas dessa vez através de uma das ideias mais peculiares surgidas na década de 60: a combinação entre saturação e geração de oitava superior.

O Lift nasceu a partir do Tycobrahe Octavia, pedal pertencente a uma família de circuitos diretamente ligada aos primeiros octave fuzzes desenvolvidos por Roger Mayer.

O conceito original surgiu ainda nos anos 60 e ficou fortemente associado às gravações de Jimi Hendrix.

Mas um octave fuzz não funciona como um oitavador convencional.

Ele não simplesmente identifica a nota tocada e cria uma segunda nota exatamente uma oitava acima.

O efeito acontece através do próprio processamento analógico do sinal, gerando uma série de novos harmônicos que fazem a oitava superior emergir de dentro da saturação.

Isso faz com que o comportamento do circuito dependa muito da maneira como a guitarra é tocada.

Notas na região mais aguda do braço tendem a revelar a oitava com maior clareza.

O captador do braço costuma facilitar esse efeito, especialmente com o controle de tone da guitarra um pouco fechado.

Ataques mais suaves e notas isoladas também ajudam a evidenciar aquela sonoridade metálica e quase sintetizada que tornou os octave fuzzes tão reconhecíveis.

Em acordes, o comportamento muda completamente.

Os harmônicos gerados pelas diferentes notas começam a interagir entre si, criando texturas mais caóticas, ásperas e imprevisíveis.

É justamente essa instabilidade que transforma o octave fuzz em algo muito diferente de uma distorção convencional.

O Tycobrahe Octavia levou essa ideia para um pedal que se tornou uma das grandes referências dessa categoria.

O Lift parte dessa arquitetura, preservando o encontro entre fuzz agressivo e geração de harmônicos superiores.

Na nossa interpretação, o pedal conta com controles de Volume e Boost, além de uma chave Lift.

Essa combinação permite explorar diferentes intensidades do efeito e trabalhar a presença da oitava dentro da textura do fuzz.

Em algumas regulagens, o resultado é um fuzz relativamente encorpado, com a oitava aparecendo apenas em determinadas notas.

Em outras, os harmônicos superiores assumem um papel muito mais evidente e o pedal passa a produzir aquele som cortante, metálico e quase eletrônico típico dos octave fuzzes clássicos.

A interação com outros pedais também abre possibilidades interessantes.

Um overdrive ou booster antes do circuito pode modificar a forma como ele reage, enquanto delays e reverbs depois do Lift ajudam a transformar os harmônicos gerados pelo fuzz em texturas muito mais amplas e psicodélicas.

É um efeito que recompensa bastante a experimentação.

A posição em que se toca, o captador escolhido, o volume da guitarra e até a intensidade da palhetada podem mudar consideravelmente o resultado.

Na edição de setembro e outubro de 2020, o Lift trouxe para o Clube justamente esse tipo de circuito.

Não apenas um fuzz, mas um efeito em que instrumento, execução e eletrônica precisam trabalhar juntos para revelar toda a sua personalidade.