Na edição de setembro e outubro de 2023 do Clube de Pedais Velouria, reunimos dois fuzzes com propostas bastante diferentes.

Os participantes podiam escolher entre o Caffeine, nossa interpretação do Demeter FUZ-1 Fuzzulator, e o The Blender, baseado no clássico Fender Blender.

De um lado, um fuzz extremamente versátil, focado e capaz de ocupar com facilidade o espaço de um drive.

Do outro, um circuito dos anos 60 feito para produzir fuzz, oitavas e texturas muito menos comportadas.

O Caffeine parte do Demeter FUZ-1 Fuzzulator, um pedal criado a partir de uma ideia bastante interessante.

James Demeter buscava construir um fuzz que não desaparecesse quando colocado em uma mix com outros instrumentos. Para isso, o Fuzzulator utiliza uma etapa de equalização antes da geração da distorção, enfatizando determinadas frequências antes que o sinal seja saturado.

Pode parecer um detalhe pequeno, mas muda bastante a maneira como o fuzz se comporta.

Uma dificuldade comum em circuitos muito saturados é produzir um som enorme quando tocamos sozinhos, mas que perde definição assim que baixo, bateria e outra guitarra entram juntos.

No Caffeine, a proposta é justamente evitar isso.

O fuzz possui foco.

As notas aparecem com clareza e a saturação pode ter bastante sustain sem necessariamente transformar tudo em uma massa difícil de posicionar.

Essa característica permite usar o pedal de uma maneira muito mais ampla.

Em regulagens mais suaves, o Caffeine pode se aproximar de um drive de médio ganho, com saturação suficiente para acrescentar textura e sustain, mas ainda preservando bastante definição.

É possível chegar àquele tipo de som de fuzz cantado, cheio de sustain e colocado bem na frente da mix, uma estética que imediatamente lembra algumas das grandes sonoridades de lead associadas a Eric Johnson.

Mas o Caffeine não precisa ser comportado.

Quando levado para regulagens mais extremas, existe ganho suficiente para produzir um fuzz pesado, comprimido e agressivo.

Essa capacidade de caminhar entre os dois lados faz com que ele possa funcionar tanto como o único fuzz de um pedalboard quanto como uma opção diferente dentro de uma coleção maior.

O circuito original também oferece duas respostas distintas de clipping. A posição Tight utiliza LEDs e produz uma saturação mais firme e com maior nível de saída. A posição Loose utiliza uma combinação de diodos de silício e germânio, gerando uma resposta mais solta e com um caráter de fuzz mais tradicional.

Do outro lado da edição estava o The Blender.

Sua origem está em um dos projetos mais peculiares da primeira grande era dos fuzzes.

A Fender apresentou o Fender Blender em 1968, em um período no qual os fabricantes ainda experimentavam livremente com diferentes maneiras de distorcer e modificar o sinal da guitarra.

O Blender combina uma grande quantidade de fuzz com geração de harmônicos de oitava, produzindo uma textura que pode variar entre sons relativamente tradicionais e algo muito mais caótico.

É importante entender que essa oitava não funciona como um pitch shifter moderno.

Ela nasce da própria maneira como o circuito reorganiza o sinal.

Por isso, sua presença muda dependendo da nota tocada, da região do braço, do captador utilizado e da maneira como o músico ataca as cordas.

Em determinadas regulagens, é possível chegar àquela oitava superior clássica que imediatamente remete aos grandes octave fuzzes psicodélicos.

Em outras, o circuito praticamente desmonta o sinal.

Acordes geram novas interações harmônicas, notas começam a produzir frequências inesperadas e o fuzz assume uma textura agressiva, estranha e extremamente particular.

O circuito original oferece controles de Volume, Sustain, Tone e Blend, além de uma segunda função para alterar ainda mais sua resposta tonal.

Essa combinação fez com que o Fender Blender encontrasse espaço em épocas e estilos muito diferentes.

Robin Trower explorou sua sonoridade durante os anos 70, enquanto décadas depois o pedal voltou a aparecer ligado às texturas muito mais densas de Billy Corgan e Kevin Shields.

Isso mostra o quanto um circuito criado no final dos anos 60 pode continuar soando estranho e atual muito tempo depois.

Na edição de setembro e outubro de 2023, Caffeine e The Blender representaram dois extremos dessa mesma categoria.

O Caffeine mostra como um fuzz pode ser focado, versátil e perfeitamente capaz de ocupar o espaço normalmente reservado a um overdrive.

O The Blender segue na direção oposta e aproveita justamente a capacidade do fuzz de destruir, multiplicar e reorganizar o sinal.

Dois circuitos raros, duas filosofias diferentes e duas maneiras de mostrar por que o fuzz continua sendo uma das categorias mais interessantes de efeitos para guitarra.